
Deitei para dormir a pouco, mas o vento na janela do quarto me fez levantar, me parece incrível como os ventos parecem muitas vezes a voz da natureza que grita muda diante de tudo que tenta se levantar contra ela. Confesso que as vezes, em meio a fortes ventanias e tempestades, me pego com medo, medo de que o que acontece possa ser a fúria incontrolável das forças naturais, medo de que um sopro no meio da noite, ou mesmo no fim da tarde seja o ponto de partida para o meu ultimo suspiro.
Sei que essa visão pode soar em suma surreal, mas acho também que a mente que não viaja nas peripécias da natureza não irá chegar muito longe daquilo que já é, então abro minhas asas e vejo mesmo nos gritos mais altos da natureza o troco, a resposta a tudo que tiramos dela. Como um animal coagido, ou mesmo como uma criança que perde um brinquedo ou um homem que foi surpreendido com uma perda, qualquer que seja, a natureza se faz pequena para depois se levantar em sua soberania e inigualável força contra aqueles que a fazem mal.
É como um corpo que perde um pequeno pedaço e tem suas reações, ao primeiro sinal de dor ele se recolhe, em seguida se levanta com violência, agride o agressor, se regenera com um pedaço de carne e pele ainda mais grossa, mais forte, mesmo que não seja com a mesma beleza que havia anteriormente. Vida invisível, escondida no manto verde das matas ou nos lençóis azuis do mar, vida forte que aparenta fraqueza apenas para incorporar a beleza ainda mais pura do singelo, beleza sutil e fugaz, dócil e sagaz que deita e se faz de cama para quem a serve, ou se levanta de armas em punho contra aqueles que a agridem.
De fato não haverá impunidade para aqueles que a tentam punir, não haverá esquecimentos para os que a preservam, a nobre mãe de todos é justa e bela, dá o que tem de melhor na medida que lhe cabe dar, não se pode cobrar mais do que é dado, quem cobrar um presente de maior valor ao visitante, ou ainda ao dono da casa. A natureza, mãe, filha, amiga e serva se permite o uso livre, mas que o uso não se torne abuso, ou ele mesmo se fará condenação.
"Sou doce mãe dos pobres e sábios que me amam
Sou amiga dos que me querem bem e me usam com discernimento
Sou dona do tudo e tudo dou sem nada cobrar
Sou pura na essência e linda na superfície
Sou rica em todo o meu corpo, riquezas vivas e sem vida
Sou aquilo que me compõe, o que você vê ou não
Sou o ar, a água, a terra, o fogo, o metal
Sou o que você precisa e o que você rejeita
Sou você quando nasci, quando vive e até depois de morrer
Sou tudo que não encontra em si
Sou tudo que procura em mim, mesmo sem saber
Sou a tua alegria, teu gozo, tua tristeza
Sou tuas lágrimas que molhando tua alma gerando vida
Sou suave e doce como nenhuma criança sonha
Sou em suma natural, sou eterna natureza."
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