domingo, 18 de março de 2012

Livros de espelhos sempre se quebram

Ontem, enquanto visitava uma exposição de artes plásticas, na qual a artista Gabriela Irigoyen retrata o seu amor pelos livros, me despertou a atenção uma obra intitulada "Livro de Espelhos". Tentei refletir e chegar a alguma conclusão sobre o que esta obra causara em mim.

Ler um livro de espelhos é mais profundo e possivelmente medonho do que possamos imaginar. É como descobrir com precisão aquilo que seus olhos querem, ou permitem que você saiba sobre você mesmo. É encontrar-se consigo em meio a páginas que só tem definição a partir do seu humor, da sua vontade, ou daquilo que o seu coração, sua mente, tem a expressar em determinado momento.

Penso então no quanto ainda temos medo de nós, medo dos limites, dos devaneios, dos desejos insaciados, ou os mais incontrolados. Temos medo do medo que podemos ter, do que ele pode causar em nós. Entender um ser humano não é fácil, entender um ser humanos cujo qual chamamos de "Eu", penso que seja mais difícil ainda.

Anos de convivência, uma vida ao seu lado, e se eu lhe perguntar simplesmente "Quem é você?", a pergunta soará como retórica. Qualquer resposta que tente me dar, não irá responder. Pode dizer seu nome, profissão, idade, onde vive, o que gosta, o que não gosta. Mas a verdade é que não sabemos quem somos, ou mesmo o que somos. Em constante releitura e sempre nos reinventando, reconstruindo a nós mesmos e a nossas relações, assim é a nossa vida. Justamente por isso, esta leitura de um livro de espelhos pode ser mais complexa, torturante e  sem fim que qualquer Camões, Andrade, Shakespeare, ou qualquer outro.

Acho assustador como podemos ter concepções tão bem formas e estruturadas sobre qualquer pessoa sobre a qual nos seja perguntado, mas não sabemos falar quase nada sobre nós mesmo, que somos o único eterno companheiro de nós. Perceba que ler uma pagina por dia, deste livro infindável é como conhecer um novo ego por dia. Podemos ver a cada dia um novo sorriso, novas lagrimas, rugas, expressões, olheiras... e em cada umas destas marcas uma nova possibilidade, um novo sentimento, uma nova sensação.

Sem falar que um livro destes nos permite apreciar e "indecifrar" o externo, mas o que há dentro de nós, o que a alma nos reserva, onde poderemos ler, como podemos entender? Como podemos amar e deixar ir, odiar e querer por perto, pegar para soltar, ou soltar para depois correr atrás? Sei que falando assim, talvez você imagine que nunca fez coisas deste tipo, mas tente recuperar os registros dos seus próprios livros e verás que o que digo, já aconteceu com você em algum momento. Somos tão invariavelmente indecisos e incompreendidos por nós mesmos que nem lembramos das coisas vãs que nos permitimos passar, ou mesmo as que nos arrependemos diariamente por ter feito, sem perceber que as fizemos.

Nossas escolhas, nossas decisões, interações e ações, tudo é construção do que somos, mas demoramos para perceber isso. Quem precisa de verdade de um livro de espelhos? Quem precisa olhar todos os dias para um objeto de estudo que lhe apresenta alguém que está todos os dias com você? Na verdade, não precisamos de leituras externas, não precisamos de opiniões externas, precisamos olhar para nós mesmos, fechar os olhos por alguns instantes, pensar no que esta dentro de nós. Nos orgulhar do que fazemos, ou fazer o possível para mudar.

Um livro, seja ele de espelhos, ou de papel, de imagens ou letras, não dirá mais sobre você do que aquilo que já está contido em você. Existem leituras que irão nos amadurecer, transformar e renovar interiores, mas nenhuma irá dizer quem é você. Esta questão está respondida dentro de nós e não é um espelho ou uma pagina que um dia irá se decompor que irá responder. Quem sou? Quem é você? Quem é este que está ao seu lado? Não é esta a pergunta certa, tente perguntar, quem sabe, como estou? Como posso ser diferente hoje? Como posso transformar e ajudar este ao meu lado a se encontrar hoje? Como poderei me encontrar hoje?

Se descubra, se conheça, se liberte. Quebre os seus espelhos, se desfaça de rótulos, de conceitos, corra, voe, viva!

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