Em um daqueles dias em que parece que um homem não deveria ser forçado a sair de sua casa, Douglas caminha pela noite. A passarela negra, guia de forma desordenada seus pés. Calçando o seu sapato mais apertado, trajando seu terno mais pesado, fadigado pelo fardo mais antigo a carregar. Parecendo ser consumido pela bebida ou por drogas que talvez jamais tenha ouvido falar. Mas esta apenas cansado, sucumbindo as dores da rotina, da mesmice, dos pesos que a vida lhe impõe.
Não bastassem as próprias desordens, os medos, os descontextos, a noite ainda lhe reservara olhares de condenação, gestos de omissão e talvez novas marcas. A mãe, cobre os olhos de sua criança ao ver aquele homem aparentemente embriagado. O jovem, se coloca a frente de sua namorada, num ato de tentar protege-la daquele que parece marginal (com o sentido mais criminalizado da palavra). O homem que apenas caminha sozinho, cerra os punhos, pensando no caso de precisar se defender daquele indigente, grupos de desordeiros zombam o maltrapilho.
A cada passo, as luzes chegam a parecer se apagar a sua frente, o asfalto gasto parece esconder buracos ou armadilhas que se revelam apenas quando são pisadas. Cordas parecem puxar o pobre homem para um encontro violento contra o meio-fio, sua sorte talvez seja ser puxado por ambos os lados, se mantendo, desta forma, ainda de pé.
Ao por as mãos sobre a porta, apenas tenta encontrar a chave, por hora escondida no seu bolso. As roupas parecem feitas de aço ou pedras, o sapato parece diminuir a cada passo e mesmo uma fina corrente de prata, carregando uma pequena placa com seu nome, parece uma apertada coleira. Os dedos encontram no fundo do bolso esquerdo a chave, mas esta parece nem querer se encontrar com a fechadura.
Enfim, dentro de casa. O homem não pensa antes de se desfazer das roupas, do sapado, da corrente. Um gesto desesperado para se libertar do peso, como se este peso fosse apenas físico, mas o desgaste vai além, a fadiga mental, as dores espirituais, tudo parece pesar a favor da gravidade.
Um bom banho quente para aliviar a tensão, mas cada gota parece navalha tocando a pele. Pega a toalha, ao se secar, parece ter a pele esfregada por palhas de aço. O que resta, ou o fardo que lhe cabe agora é deitar-se, encontrar-se com os pesadelos, aqueles trazidos desde a infância e os adquiridos ao longo da vida.
Todas as razões para não querer dormir, ou se dormir, não querer mais acordar. Mas este é um homem, não um moleque, ou um projeto. Aquele que se desgasta, o permite pois sabe a recompensa que lhe espera, ou se não sabe, a fé, a esperança o mantém na linha. Mesmo quando o fardo parece maior do que se possa carregar, quando o peso da própria vida parece ir além da força dos braços, nada é sem saída. Um homem coloca a cabeça sobre o travesseiro pensando que amanhã, além de um novo dia, é uma oportunidade de ser e fazer diferente, não um outro dia para sair e voltar seguindo os mesmo caminhos, dando os mesmo passos. O poder do novo está em suas mãos, não no ar. Homens lutam, projetos se rendem.
"Não adianta procurar um novo caminho, se você não muda a forma de caminhar."

Nenhum comentário:
Postar um comentário