No mundo nos sentimos excluidos, diferenciados, deslocados, ou apenas diferentes. Esse blog é para conversar, debater, discutir as coisas que nos fazem diferentes, que nos separam dos demais.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Há vagas
No silêncio de noites comuns, na solidão de noites desregradas e desenfreadas, a bailarina aquieta seu coração no fim de toda agitação, para saber, onde andará aquela certeza de um amor inesgotável, que sempre havera carregado em seu peito? Onde está o príncipe que vem à galope ao primeiro sinal de tormento? A bailarina senta-se no meio fio, ainda sem resposta.
Recordando os tempos de outrora, quando o sino chamava para degustar aquele feijão cujo cheirinho tomava todo o quintal da casa da vó. Os dias de brincadeiras de criança, sentada à mesa, com colegas da escola, que só pensavam no que queriam ser quando crescer, mas a verdadeira preocupação era se eles seriam grandes. Os desenhos, sempre tão animados, exibidos na TV, de cores fortes, vivas, faziam pensar que a vida seria sempre assim, tão colorida.
A vida vai e vem nos dias, a bailarina cresce, aprende movimentos, aprende que na vida é necessário ensaiar leveza, produzir naturalidade e esboçar lindos sorrisos, quando ainda se quer chorar. Os movimentos, que ela precisa fazer de forma singela, surgem de fortes marretadas contra pedras quase inquebráveis. O simples desenrolar de braços e mãos é um movimento de tamanha força, que a bailarina pouco se contém.
Ela cresce mais, adulta, a bailarina tem sobre a ponta dos pés o peso do mundo, seus braços são sutis e fortes como rios que transpassam as mais impensáveis barreiras. Mas a felicidade... será que ela lembra como se soletra? F-E-L-I-C-I-D-A-D-E, é assim mesmo? Mais do que saber escrever, como é mesmo que se tem, que se vive?
A bailarina se esquece, com o tempo, como é ser criança, sem peso, sem força, sem grandes preocupações ou embaraços. A sapatilha pequena, leve, se tornou um sapato pesado e duro. A dor de um solo entristece a bailarina que sentada no meio fio, se recorda de uma ideia de príncipe, ou encantado, encanto, algo assim. É difícil lembrar, lembranças trazem tantas vontades que nem se podem viver.
Som de passos no fim da rua, os passos parecem estranhos, passam uns por cima dos outros, alguém mal se sustenta em pé. Um bêbado talvez. O homem passa, o solo continua. A maquiagem borrada, o cabelo desarrumado, a roupa bagunçada e as gotas de chuva que tocam a face para levar e lavar o que há de ruim. A água escorre pelo boeiro, o coração, as ideias e incertezas ficam. A dama espera um príncipe, o tempo foge da dama, a noite luta para não terminar, tentando ajudar. O dia vem, hora de ir, a cama a espera, o travesseiro lhe guarda verdades amargas que virão em sonhos.
A bailarina levanta, de cabeça baixa segue pela rua, o rosto que esboçava sorrisos, naturalidade nos movimentos mais improváveis, nada diz. No peito, escondido entre vestes, pele, e nervos, uma placa, quase invisível, que diz, "Há vagas".
domingo, 18 de março de 2012
Livros de espelhos sempre se quebram
Ontem, enquanto visitava uma exposição de artes plásticas, na qual a artista Gabriela Irigoyen retrata o seu amor pelos livros, me despertou a atenção uma obra intitulada "Livro de Espelhos". Tentei refletir e chegar a alguma conclusão sobre o que esta obra causara em mim.
Ler um livro de espelhos é mais profundo e possivelmente medonho do que possamos imaginar. É como descobrir com precisão aquilo que seus olhos querem, ou permitem que você saiba sobre você mesmo. É encontrar-se consigo em meio a páginas que só tem definição a partir do seu humor, da sua vontade, ou daquilo que o seu coração, sua mente, tem a expressar em determinado momento.
Penso então no quanto ainda temos medo de nós, medo dos limites, dos devaneios, dos desejos insaciados, ou os mais incontrolados. Temos medo do medo que podemos ter, do que ele pode causar em nós. Entender um ser humano não é fácil, entender um ser humanos cujo qual chamamos de "Eu", penso que seja mais difícil ainda.
Anos de convivência, uma vida ao seu lado, e se eu lhe perguntar simplesmente "Quem é você?", a pergunta soará como retórica. Qualquer resposta que tente me dar, não irá responder. Pode dizer seu nome, profissão, idade, onde vive, o que gosta, o que não gosta. Mas a verdade é que não sabemos quem somos, ou mesmo o que somos. Em constante releitura e sempre nos reinventando, reconstruindo a nós mesmos e a nossas relações, assim é a nossa vida. Justamente por isso, esta leitura de um livro de espelhos pode ser mais complexa, torturante e sem fim que qualquer Camões, Andrade, Shakespeare, ou qualquer outro.
Acho assustador como podemos ter concepções tão bem formas e estruturadas sobre qualquer pessoa sobre a qual nos seja perguntado, mas não sabemos falar quase nada sobre nós mesmo, que somos o único eterno companheiro de nós. Perceba que ler uma pagina por dia, deste livro infindável é como conhecer um novo ego por dia. Podemos ver a cada dia um novo sorriso, novas lagrimas, rugas, expressões, olheiras... e em cada umas destas marcas uma nova possibilidade, um novo sentimento, uma nova sensação.
Sem falar que um livro destes nos permite apreciar e "indecifrar" o externo, mas o que há dentro de nós, o que a alma nos reserva, onde poderemos ler, como podemos entender? Como podemos amar e deixar ir, odiar e querer por perto, pegar para soltar, ou soltar para depois correr atrás? Sei que falando assim, talvez você imagine que nunca fez coisas deste tipo, mas tente recuperar os registros dos seus próprios livros e verás que o que digo, já aconteceu com você em algum momento. Somos tão invariavelmente indecisos e incompreendidos por nós mesmos que nem lembramos das coisas vãs que nos permitimos passar, ou mesmo as que nos arrependemos diariamente por ter feito, sem perceber que as fizemos.
Nossas escolhas, nossas decisões, interações e ações, tudo é construção do que somos, mas demoramos para perceber isso. Quem precisa de verdade de um livro de espelhos? Quem precisa olhar todos os dias para um objeto de estudo que lhe apresenta alguém que está todos os dias com você? Na verdade, não precisamos de leituras externas, não precisamos de opiniões externas, precisamos olhar para nós mesmos, fechar os olhos por alguns instantes, pensar no que esta dentro de nós. Nos orgulhar do que fazemos, ou fazer o possível para mudar.
Um livro, seja ele de espelhos, ou de papel, de imagens ou letras, não dirá mais sobre você do que aquilo que já está contido em você. Existem leituras que irão nos amadurecer, transformar e renovar interiores, mas nenhuma irá dizer quem é você. Esta questão está respondida dentro de nós e não é um espelho ou uma pagina que um dia irá se decompor que irá responder. Quem sou? Quem é você? Quem é este que está ao seu lado? Não é esta a pergunta certa, tente perguntar, quem sabe, como estou? Como posso ser diferente hoje? Como posso transformar e ajudar este ao meu lado a se encontrar hoje? Como poderei me encontrar hoje?
Se descubra, se conheça, se liberte. Quebre os seus espelhos, se desfaça de rótulos, de conceitos, corra, voe, viva!
Ler um livro de espelhos é mais profundo e possivelmente medonho do que possamos imaginar. É como descobrir com precisão aquilo que seus olhos querem, ou permitem que você saiba sobre você mesmo. É encontrar-se consigo em meio a páginas que só tem definição a partir do seu humor, da sua vontade, ou daquilo que o seu coração, sua mente, tem a expressar em determinado momento.
Penso então no quanto ainda temos medo de nós, medo dos limites, dos devaneios, dos desejos insaciados, ou os mais incontrolados. Temos medo do medo que podemos ter, do que ele pode causar em nós. Entender um ser humano não é fácil, entender um ser humanos cujo qual chamamos de "Eu", penso que seja mais difícil ainda.
Anos de convivência, uma vida ao seu lado, e se eu lhe perguntar simplesmente "Quem é você?", a pergunta soará como retórica. Qualquer resposta que tente me dar, não irá responder. Pode dizer seu nome, profissão, idade, onde vive, o que gosta, o que não gosta. Mas a verdade é que não sabemos quem somos, ou mesmo o que somos. Em constante releitura e sempre nos reinventando, reconstruindo a nós mesmos e a nossas relações, assim é a nossa vida. Justamente por isso, esta leitura de um livro de espelhos pode ser mais complexa, torturante e sem fim que qualquer Camões, Andrade, Shakespeare, ou qualquer outro.
Acho assustador como podemos ter concepções tão bem formas e estruturadas sobre qualquer pessoa sobre a qual nos seja perguntado, mas não sabemos falar quase nada sobre nós mesmo, que somos o único eterno companheiro de nós. Perceba que ler uma pagina por dia, deste livro infindável é como conhecer um novo ego por dia. Podemos ver a cada dia um novo sorriso, novas lagrimas, rugas, expressões, olheiras... e em cada umas destas marcas uma nova possibilidade, um novo sentimento, uma nova sensação.
Sem falar que um livro destes nos permite apreciar e "indecifrar" o externo, mas o que há dentro de nós, o que a alma nos reserva, onde poderemos ler, como podemos entender? Como podemos amar e deixar ir, odiar e querer por perto, pegar para soltar, ou soltar para depois correr atrás? Sei que falando assim, talvez você imagine que nunca fez coisas deste tipo, mas tente recuperar os registros dos seus próprios livros e verás que o que digo, já aconteceu com você em algum momento. Somos tão invariavelmente indecisos e incompreendidos por nós mesmos que nem lembramos das coisas vãs que nos permitimos passar, ou mesmo as que nos arrependemos diariamente por ter feito, sem perceber que as fizemos.
Nossas escolhas, nossas decisões, interações e ações, tudo é construção do que somos, mas demoramos para perceber isso. Quem precisa de verdade de um livro de espelhos? Quem precisa olhar todos os dias para um objeto de estudo que lhe apresenta alguém que está todos os dias com você? Na verdade, não precisamos de leituras externas, não precisamos de opiniões externas, precisamos olhar para nós mesmos, fechar os olhos por alguns instantes, pensar no que esta dentro de nós. Nos orgulhar do que fazemos, ou fazer o possível para mudar.
Um livro, seja ele de espelhos, ou de papel, de imagens ou letras, não dirá mais sobre você do que aquilo que já está contido em você. Existem leituras que irão nos amadurecer, transformar e renovar interiores, mas nenhuma irá dizer quem é você. Esta questão está respondida dentro de nós e não é um espelho ou uma pagina que um dia irá se decompor que irá responder. Quem sou? Quem é você? Quem é este que está ao seu lado? Não é esta a pergunta certa, tente perguntar, quem sabe, como estou? Como posso ser diferente hoje? Como posso transformar e ajudar este ao meu lado a se encontrar hoje? Como poderei me encontrar hoje?
Se descubra, se conheça, se liberte. Quebre os seus espelhos, se desfaça de rótulos, de conceitos, corra, voe, viva!
domingo, 4 de março de 2012
Passos reservados para amanhã
Em um daqueles dias em que parece que um homem não deveria ser forçado a sair de sua casa, Douglas caminha pela noite. A passarela negra, guia de forma desordenada seus pés. Calçando o seu sapato mais apertado, trajando seu terno mais pesado, fadigado pelo fardo mais antigo a carregar. Parecendo ser consumido pela bebida ou por drogas que talvez jamais tenha ouvido falar. Mas esta apenas cansado, sucumbindo as dores da rotina, da mesmice, dos pesos que a vida lhe impõe.
Não bastassem as próprias desordens, os medos, os descontextos, a noite ainda lhe reservara olhares de condenação, gestos de omissão e talvez novas marcas. A mãe, cobre os olhos de sua criança ao ver aquele homem aparentemente embriagado. O jovem, se coloca a frente de sua namorada, num ato de tentar protege-la daquele que parece marginal (com o sentido mais criminalizado da palavra). O homem que apenas caminha sozinho, cerra os punhos, pensando no caso de precisar se defender daquele indigente, grupos de desordeiros zombam o maltrapilho.
A cada passo, as luzes chegam a parecer se apagar a sua frente, o asfalto gasto parece esconder buracos ou armadilhas que se revelam apenas quando são pisadas. Cordas parecem puxar o pobre homem para um encontro violento contra o meio-fio, sua sorte talvez seja ser puxado por ambos os lados, se mantendo, desta forma, ainda de pé.
Ao por as mãos sobre a porta, apenas tenta encontrar a chave, por hora escondida no seu bolso. As roupas parecem feitas de aço ou pedras, o sapato parece diminuir a cada passo e mesmo uma fina corrente de prata, carregando uma pequena placa com seu nome, parece uma apertada coleira. Os dedos encontram no fundo do bolso esquerdo a chave, mas esta parece nem querer se encontrar com a fechadura.
Enfim, dentro de casa. O homem não pensa antes de se desfazer das roupas, do sapado, da corrente. Um gesto desesperado para se libertar do peso, como se este peso fosse apenas físico, mas o desgaste vai além, a fadiga mental, as dores espirituais, tudo parece pesar a favor da gravidade.
Um bom banho quente para aliviar a tensão, mas cada gota parece navalha tocando a pele. Pega a toalha, ao se secar, parece ter a pele esfregada por palhas de aço. O que resta, ou o fardo que lhe cabe agora é deitar-se, encontrar-se com os pesadelos, aqueles trazidos desde a infância e os adquiridos ao longo da vida.
Todas as razões para não querer dormir, ou se dormir, não querer mais acordar. Mas este é um homem, não um moleque, ou um projeto. Aquele que se desgasta, o permite pois sabe a recompensa que lhe espera, ou se não sabe, a fé, a esperança o mantém na linha. Mesmo quando o fardo parece maior do que se possa carregar, quando o peso da própria vida parece ir além da força dos braços, nada é sem saída. Um homem coloca a cabeça sobre o travesseiro pensando que amanhã, além de um novo dia, é uma oportunidade de ser e fazer diferente, não um outro dia para sair e voltar seguindo os mesmo caminhos, dando os mesmo passos. O poder do novo está em suas mãos, não no ar. Homens lutam, projetos se rendem.
"Não adianta procurar um novo caminho, se você não muda a forma de caminhar."
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Bagunçado, mas escrito
Depois de tanto tempo, poderia começar este post falando sobre o que aconteceu, meus planos e vontades para as próximas postagens, mas acho que é perda de tempo. Acho que minha vida e meus conflitos apresentados de forma dramática não são de interesse de ninguém. Então prefiro tentar poetizar com aqueles que ainda arriscam ler um pouco das minhas linhas e entrelinhas.
"Escrever é um exercício diário", já diria Carlos Drummond Andrade. Por isso, pela falta de prática, talvez as próximas palavras não saiam com o real carinho que as mesmas mereçam, mesmo assim não me furto o prazer de empunhar a pena outra vez. Preparar a tela e misturar a massa para construir. Fazendo mesmo este misto de expressões artísticas, reinventando figurinos, pintando o rosto para que este texto tenha a imagem que você jamais possa ter imaginado, ou que ao imaginar se deparou com algo indefinido dentro de si.
Pois hoje vejo que é assim que somos, indefinidos. Quando próximos a respostas claras e maduras, percebemos as questões ainda cruas e sem sabor. Sei que a confusão de cores, sabores, odores e tudo mais pode parecer complexo, mas sei que se você se dispõe a ler aquilo que está registrado aqui é por que há aí um desejo de saber, de também ter ideias. Não que eu as tenha, mas estamos no mesmo caminho meu caro. Precisando as vezes de um freio ou de um black out, mas sem parar, apenas fazendo breves pausas, trocando as penas, arrancando as garras, quebrando o bico para que possa nascer tudo novo, mais vivo, mais forte, e agora mais maduro pelas respostas já adquiridas e que agora se tornam novas duvidas.
Por isso, me sentindo renovado pelas experiências e reflexões vividas. Volto a escrever, não pelo desejo de ser lido, mas pelo prazer de falar, de escrever, de pintar e tecer fios novos, formar texturas e formas ainda não imaginadas.
Por isso aqui estão estas poucas palavras iniciais. Bagunçadas, esquisitas, sem sentido, ainda de forma indefinida, mas acho que hoje eu apenas coloquei as mãos no monte de argila, começando a dar forma, mas ainda sem saber o resultado final, tendo apenas um esboço cru na mente. Quem sabe até o fim da trajetória eu consiga esculpir a minha obra prima?
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