sábado, 11 de dezembro de 2010

Segundo Ato

Tenho o olhar como uma espécie de porta, como a entrada para algo mais profundo.

Talvez ele, o homem do romance duvidoso que lhes relato, também pensasse assim, pois não se pode deixar aquietar com a lembrança daquele olhar e da noite que passara com a dona daqueles olhos intrigantes e sedentos, a coordenadora dos gestos sutis e mansamente sedutores, a possuidora do poder de prender a atenção daquele guerreiro, destemido e ate então inatingível por sentimentos afetivos e tão românticos.

Mas algo naquele rosto lhe intrigava, não apenas o olhar ou gestos, ele a desejava como um afogado deseja o ar. Desmedido pela incerteza do que estava acontecendo, ele não se conteve ou se reteve e partiu em busca dela, uma busca alucinada e desmedida para encontrar aquilo que pudesse sobrepor o vazio que ate então ele nem mesmo sonhara que tivesse. O reencontro, sutil, quase como um acaso, e talvez assim mesmo ele quisesse que parecesse, não podia dar bandeira e revelar sua intenção tão egoísta e tão autruista, paradoxo real e presente no olhar daquele homem maravilhado pela beleza daquele rosto que o acompanhava desde a primeira vez, em sua mente, nos sonhos mais inesperados e nos momentos mais descontraídos.

O segundo encontro se fazia existir, mas a duvida, ou mesmo a preocupação agora era: como tornar este encontro inesquecivel? Como fazer com que ela encontre nele o que ele agora pode usar para se saciar através dela?

Pois quando a magia flui, as coisas simplesmente acontecem. Como que em um toque de magica, um pequeno bonus proporcionado por Deus, a chuva desce, esperada ao longo de todo o dia, quisera pois cair sobre as cabeças desses novos amantes. Não por um acaso, mas para aumentar ainda mais o vinculo já existente entre eles. A gotas no rosto dela ressaltavam a beleza de sua face, brilhando como diamantes que cobrem a mais suave pele. O som das gotas caindo ao chão soavam como instrumentos musicalizando a voz doce e ainda insegura dela que talvez nem soubesse o que queria, mas que estava ali, entregue.

Mesmo sabendo de uma plateia silenciosa ao fundo, que os observava de longe, tentando se fazer perceber, eles viviam ali o cenário perfeito do segundo ato. Não pelos artifícios que a própria natureza, ou que outros homens na sua desordem tivessem colocado ali, mas apenas pela presença dos dois, a chuva, o som, os olhares, os toques. Toques estes que revelavam a alma de ambos, no silencio inóspito criado pelo som da chuva. A magia se tornara ainda mais forte, os laços iniciados pelos movimentos de um outro dia se consolidavam a margem desta cena inimaginável.

O corpo de ambos entre abraços e tremidas anunciavam mais uma vez a hora da despedida, mas a certeza implacável de um novo encontro. A plateia alterada, quase invadia o palco dos atores escolhidos pela vida, mas o espetaculo não para assim, apenas da um tempo, uma troca de figurinos e a edição de um novo texto, alimentado pelo anseio de novas experiências tão inesqueciveis quanto as ate então narradas.

Ainda acredito em um futuro maior, nossos atores não se despediram de forma definitiva ainda. Eu também não poderia deixar que o fizessem. Farei ainda o papel do delator falho de uma experiência que não tem descrição, pois esta alem da compreensão de nossas mentes, acho que mesmo vivendo para saber o que passam esses amantes, mas ainda tentarei passar aquilo que posso observar. Quem sabe daqui a alguns dias um novo ato? O que nos resta eh aguardar.

Um comentário:

  1. O que mais me chama a atenção é a riqueza de detalhes !
    As palavras tão sutilmente empregadas , como a organização de uma orquestra sinfonica , todos tem seu devido lugar , sua hora de se pronunciar e principalmete seu espaço para assim encantar a plateia com seu som marcante e ipnotizante !
    Suscito novamente o que antes havia dito ; para se observar , viver ou sentir aliás expressar momentos assim se precisa ter além de uma enorme sensibilidade , a alma de um poeta !

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